Meu dinheiro, minhas regras

Se você é quem determina o destino para seu dízimo, então quem determina o destino para sua vida não é Deus, mas você. Quem está no controle dela é você e não Ele. 

   Certa vez um amigo com uma carreira promissora me mandou uma mensagem. Sabendo que eu desenvolvo trabalhos missionários no Japão e na Ásia, ele me disse como gostaria de direcionar o dízimo dele para mim. Afinal de contas a igreja que ele congregava era bem próspera e parecia não necessitar de mais recursos e ele percebia a necessidade de se envolver com o trabalho de Deus ao redor do mundo. Certamente alguém com a carreira dele em poucos anos ganharia um bom salário e, consequentemente, o dízimo seguiria o mesmo padrão. Porém, com muita educação eu recusei a oferta. Apesar da ideia ser fantástica e aparentemente nobre, era, no entanto, fora da perspectiva bíblica.

   Infelizmente esse tipo de pensamento não é raro. Muitos cristãos pensam que são os “donos” do dízimo e, portanto, têm o direito de utilizá-lo como bem entender. Ao invés de entregar o dízimo na igreja, por que não direcionar para pessoas carentes, ou então para algum asilo, orfanato, obra missionária? Afinal de contas, eu labutei pelo meu salário e tenho o direito de bem usá-lo como melhor me parecer, eles conjecturam. 

   Outros mais equivocados ainda, nem entregam o dízimo, porque segundo eles não faz mais parte da era em que vivemos, pois “o dízimo é da lei”. A propósito, qual é essa “lei” a que eles se referem? Pelo tom como se dirigem a ela, parece que a Era da Graça não tem lei alguma. Então eu os argumentaria com os seguintes termos presentes no Novo Testamento, que são referentes a Era da Graça: o que dizer da lei do amor? E a lei do espírito e vida? E a lei da fé? E a lei da semeadura? Todas essas leis que citei se encontram no Novo Testamento. Será que a graça com sua liberdade, nos trouxe mais comodismo e uma vida sem perspectivas, nos ausentando da necessidade de algum dia nos reportar pela maneira como agimos em relação a Palavra? A propósito, se não há mais dízimo na presente era, também deveríamos abolir a justiça, misericórdia e a fé! Pois Jesus em Mateus 23.23 equipara o dízimo a princípios eternos, como esses três em questão. 

   O ponto que eu quero tratar, contudo, é afirmação que alguns cristãos têm em relação ao dízimo de serem “donos” dele e por isso eles podem determinar o destino que eles quiserem. O dízimo é a décima parte da renda que é dada a Deus e Hebreus 7.8 afirma: aqui (na terra) entregamos para homens, mas quem recebe o dízimo é o próprio Senhor. O dízimo é uma demonstração de gratidão, dependência e confiança em Cristo. Obviamente  no Antigo Testamento era uma obrigatoriedade, sujeito a maldição caso não fosse cumprido. Na Era da Graça entregamos a nossa igreja local, como forma, também, de honrar nossos guias que dedicam suas vidas a nos servirem espiritualmente e, assim podemos manter a obra do Senhor, servindo-os materialmente (I Co 9.11). 

   Agora você parou para pensar que se Deus não te desse vida, saúde e força para trabalhar você jamais teria condições de ter seu salário? Você também já refletiu no fato que todo o recurso presente na terra, que lhe dá meios para sobreviver, vieram do próprio Deus? Além do mais, nossa própria vida foi comprada pelo sangue de Cristo e nos tornamos hoje livres do pecado, mas escravos da justiça (Rm 6.18). Perceba o que Deus deixou bem claro para o povo de Israel, quando ainda era uma aliança inferior:

   Se cada um de vocês começar a pensar assim: “Fui eu que conquistei tudo isso. Eu fiz tudo sozinho. Eu sou rico. É tudo meu!”, ora, pensem bem. Lembrem-se de que foi o Eterno que deu a vocês forças para que produzissem toda essa riqueza, confirmando, assim, a aliança que ele firmou com seus antepassados — como hoje se vê. Dt 8:17-18 (versão A Mensagem)

   Veja como Davi, o homem segundo o coração de Deus, reagiu após dar uma oferta esplendorosa junto com o povo de Israel:

   Mas quem sou eu e quem é o meu povo para que tenhamos a ousadia de dar alguma coisa a ti? Tudo vem de ti. Estamos apenas devolvendo o que tu mesmo nos deste generosamente. 1Cr 29:14 (versão A Mensagem) 

   Com base nesses dois trechos já fica bem claro um ensinamento para nós: o dízimo não é nosso. Na verdade, penso que você deve ter notado que nem mesmo a sua renda é sua. Tudo veio Dele, por Ele e para Ele. Quem somos nós para dizer que temos direito de fazer alguma coisa conforme bem entendermos? Na verdade, Deus em Sua bondosa soberania, nos permite desfrutar dos outros 90% dos ganhos, apesar de tudo pertencer a Ele e ser um direito Seu. 

   Se você se considera o “dono” do dízimo, ou, antes, o dono da sua renda todos os meses, ou o dono da sua vida, é porque Deus ainda não é o seu dono. Se numa aliança inferior como a de Moisés, pessoas davam o dízimo, isto é, apenas 10% da renda, por que na Era da Graça nós daríamos menos diante de tanta generosidade do Pai? Por que não entregar toda nossa vida, bem como tudo que temos, a Ele?